Projeto “De Mãe para Filha”

Por Carla Machado

Qual seria o momento mais adequado para iniciar a educação pré natal? Essa pergunta tem um círculo como resposta, pois toda vez que começamos a respondê-la, vem à mente “mas por que não antes disso?” Bem, de fato, a primeira educação que recebemos acerca do período pré natal é quando somos concebidos, quando temos nossa experiência intra-útero, quando estamos sendo gestados e quando nascemos. A própria vivência é a melhor e mais efetiva forma de aprendizado – nada a substitui. O que foi vivido de bom e de ruim fica arquivado na memória celular de forma quase indelével.

Então pensamos: pra que este período seja bom temos que educar os futuros pais! E quando começar a educar esses pais? Antes da concepção, pra que esses pais já se conscientizem da importância deste momento, que é quando se “pesca” o espírito que irá encarnar. Pensando assim, em 2005, divulguei, junto com a Dra. Eleanor Madruga Luzes, um curso preparatório para casais que iriam um dia conceber (chamava-se “Crescer para se multiplicar”). Não houve sequer uma inscrição ou mesmo pedido de informações. Parece que os casais esperam a gravidez para então se informar, pois “vai que a gente não engravida, e iríamos ficar frustrados com todo esse conhecimento sem aplicação prática!”. Os casais tendem a vir quando já estão gestando uma criança, o que para a consciência da concepção já é tarde demais (exceto para aqueles que o fazem intuitivamente, o que é raro). Nos casos da educação durante o período gestacional, quem mais se beneficia são os futuros filhos do casal. E nos faz refletir se, já que antes da concepção, um casal não procura educação pré natal, temos que começar antes ainda.

Em sua tese de doutorado, Ciência do Início da Vida, Dra. Eleanor fala que deveríamos aproveitar o momento da adolescência, que é um dos picos do hormônio ocitocina no organismo, o hormônio do enamoramento, presente em altas doses na corrente sanguínea no nascimento e nas mulheres quando dão à luz. Desta forma, este momento é excelente para trazer os conhecimentos que cercam o período do nascimento, dando aos jovens uma chave de como trazer ao planeta o “homo sapiens frater”, ou seja, o novo ser humano, capaz da fraternidade. Nas escolas públicas a passagem deste conhecimento tem tido boa aceitação, eles o recebem como uma benção, pois é algo do mundo interno, que não necessita de poder aquisitivo para conquistar e está, portanto à altura de todos. Porém, no ensino particular, quando falamos da importância de uma gestação consciente, com poucas intervenções como exames invasivos, excesso de ultra-som, ou mesmo quando explicamos cientificamente as conseqüências do uso indiscriminado de anestésicos e dos males das cesarianas eletivas, os pais se sentem culpados e reclamam com a escola por estar trazendo tal conhecimento “que os condena”, a seus filhos.   Então quem sabe haja ainda um momento anterior, com a presença e conscientização destes pais?

Como minha filha está cursando o 6º ano e em sua classe várias meninas começam a menstruar – elas tem entre 11 e 13 anos – nós da ANEP, junto com a professora de classe que abriu este maravilhoso espaço de troca com as famílias, criamos um singelo projeto para preparar o terreno junto a estas mocinhas, ainda tão delicadas e puras, para que este conhecimento, quando elucidado, fertilize o solo preparado e possa ser usado de forma iniciática quando for o tempo de colocá-lo em prática.

A idéia é trabalhar dentro da relação mãe-filha – sem dúvida para a maioria das meninas, o laço mais forte que possuem, eixo pelo qual passa toda a sua relação com a ancestralidade do feminino – fortalecendo-o. Reforçamos este laço quando a mãe entrega, ritualmente, algo para a filha, para que esta se aproprie um pouco mais de seu próprio feminino. Esta entrega é feita sob a forma de uma  benção, que  é a própria intuição feminina. A intuição precisa se tornar cada vez mais presente para que a menina possa fazer escolhas mais acertadas principalmente no que diz respeito à própria sexualidade. (Não é desconhecimento de ninguém o quanto a gravidez adolescente já se tornou um problema social, mesmo nas camadas de maior poder aquisitivo e a educação pré-natal tem como resultado positivo a nível mundial a redução deste índice.)

Primeira Etapa: Preparando as Mães

O projeto “de mãe para filha“ se compõe então de duas etapas: a primeira com as mães, onde explicamos para elas a importância deste momento tão belo e trazemos, para ilustrar isso, um conto de fadas. Neste conto, a mãe, em seu leito de morte, abençoa a filha e dá para ela um presente que irá guiá-la por difíceis caminhos que ela terá que trilhar a partir daí (intuição). Trazemos também a explicação da importância do sangue menstrual, que este pode e deve ser consagrado aos seres de luz, pois todo fluido corporal nosso que não é consagrado fica à disposição dos mais variados tipos de entidades astrais; já a luz só se serve ao ser convidada, portanto trazer à consciência a importância deste convite. A não consagração deste sangue, e sua conseqüente utilização por seres indesejáveis, deixa a mulher com forte sensação de cansaço. Por essa razão, Moisés mandava que isolassem a mulher menstruada por estar “impura”, mas a impureza não vinha dela, e sim desses seres de baixa consciência que a acompanhavam durante o período menstrual. (vide o livro “Sons and daughters of light” de Omraam Michael Aivanhov) consciência desse convite aos seres de luz, e da consagração deste sangue, que sai junto com o óvulo não concebido, já vai ficar marcada para ser bem utilizada quando da gestação, fase na qual a impregnação que se dá através da imaginação ajuda a fortalecer e selecionar os melhores gens da cadeia genética do bebê.

O sangue da menarca, a primeira menstruação, é muito importante e pode ser também recolhido e derramado no jardim da casa, servindo já como uma delimitação de território psíquico (e físico) para esta nova mulher que está nascendo. Podemos sugerir presentes que a mãe possa dar para a filha para aumentar a ligação com o sangue, veículo da alma. Uma sugestão é o Abiosorvente que é um absorvente feito de flanela de algodão, sem química, fácil de lavar se seguirmos as instruções. Este depois pode se tornar um ritual mensal na vida da mulher adulta. Há uma estória que diz que quando as mulheres pararam de menstruar na terra, as guerras se acirraram, pois a terra precisa de sangue para se fertilizar. Que seja então, o sangue menstrual, que irá ser derramado de uma forma ou de outra – quer dizer, se a sociedade deixar, haja visto os métodos contraceptivos que bloqueiam a menstruação, chamando-a de “sangria inútil” ignorando não só a importância dos ciclos, quanto a poderosa LIMPEZA das toxinas físicas e psíquicas, que é feita com o derramamento do sangue menstrual.

Só que não há apenas o sangue, para que este chegue, houve antes uma ovulação (que Monika Von Koss, no seu livro “Rubra Força”, chama de fio branco, mais imperceptível, em contraponto ao fio vermelho da menstruação). Ambos nos ligam à Terra. Aqui podemos já trazer a sugestão de associar a ovulação a algum projeto criativo, algo que se queira fertilizar, acostumando assim a jovem a ter percepção do próprio corpo (de quando está ovulando), como também a conceber algo com consciência. Quando ela for conceber uma criança, muito mais fácil que esta venha dentro de uma escolha da alma e não como um acidente…

A mãe pode também confeccionar para a filha um calendário de luas. Para isso ela própria pode se conectar com a lua, passar a observá-la, reconectando-se com a própria ancestralidade, para poder trazer este saber “mensual” para a filha. A maioria das tribos nativas utiliza rituais de lua cheia para curar problemas ginecológicos e distúrbios da fertilidade em suas mulheres. Com esse calendário, perceber que se a mulher ovula na lua cheia, vai menstruar na lua nova, e assim por diante. Parece óbvio, mas muitas mulheres não receberam nenhuma instrução sobre o assunto.

Segunda Etapa: Encontro de mães e filhas

Este mesmo conto é trazido na segunda etapa, que terá a participação de mães e filhas. Neste dia aproveitamos para trabalhar com artes, sendo que muito pouco ou quase nada do significado oculto no conto ou nos trabalhos de artes é passado para as meninas. Este conhecimento está presente, sim, na consciência das mulheres adultas que estão passando sua benção para as meninas.

É importante frisar que não faremos alusão direta à menstruação nesta fase (11-12 anos), pois muitas ainda não tiveram a menarca e um ritual, só para meninas, que distinguisse as que menstruaram das que ainda não, poderia acelerar as que ainda não chegaram nesta etapa. Porém, é importante que todas recebam a benção das mães, pois nesta idade elas começam a se sentir como que “perdendo” algo da infância, que vai ficando cada vez mais para trás. Precisamos colocar algo neste lugar, algo de valor, algo que as acompanhe daqui para frente, honrando as mulheres que elas um dia serão. É esta lacuna que o encontro “de mãe para filha” vem preencher. É um dia inteiro para as mães se ocuparem das filhas, de darem a elas seu melhor, para que depois não se queixem, como no artigo de Affonso Romano de Sant´Anna, “Antes que eles cresçam”, que versa sobre o fato das crianças crescerem rápido demais quando nem ao menos pudemos perceber suas mudanças. Este encontro é uma pausa no corre-corre do dia-a-dia para olharmos para nossas crias e perceberemos como elas já cresceram, mas como ainda precisam de um adulto por perto, presente e de olho nas transformações que se passam com elas, com entendimento do “algo maior” por trás das transformações físicas.

Mais tarde, quando menstruarem, pode-se fazer um ritual mais específico. Os povos antigos têm muitas sugestões.  Veja como demanda preparação este ritual apache, onde a menina recebe também a sabedoria das plantas medicinais para saber como cuidar de sua futura família.

No livro “Celebrações”, de Tereza Hallidday, ela sugere o traçado de três círculos no chão, num espaço com todas as anciãs, mulheres e meninas “da tribo”. Em um círculo ficam as que ainda não menstruaram, em outro, as que estão em idade de procriação e um terceiro para as que já passaram pela menopausa, as sábias da tribo. Este ritual dá uma dimensão do ciclo que é a vida e como tudo fica bem quando cada uma ocupa seu espaço. No decorrer do rito, as meninas que menstruaram naquele mês passam para o círculo seguinte e as que entraram menopausa também trocam de círculo.

Os rituais nos ajudam a passar melhor pelas fases da vida, sejam elas quais forem, e a digerir o acontecimento no seu tempo, para que não fiquem pendências posteriores, o que sempre atrapalha a possibilidade de viver o presente que é a vida.

E os meninos??

Talvez ainda mais importante do que educar as meninas, seja fazer desses meninos bons homens, bons pais. Há para isso muitas sugestões de rituais com os meninos, para que estes possam começar a ocupar seu lugar de homem, trazendo a força do mundo masculino, a energia do herói. Eles também podem e devem receber o bastão de seus pais, numa experiência em que seja necessária força e coragem – o agir com o coração. Para trazer pais mais conscientes ao invés de tão “filhotes”, educados na maioria, apenas por mães.

Com a qualidade de nascimento que tivemos nas últimas décadas, cesarianas eletivas (geralmente em prol do calendário médico-hospitalar) que retiram o bebê antes dele estar pronto para sair, esquema de encubadora ou berçário, que separa a mãe do filho nas mais cruciais 2 horas de vida, que são as 2 horas do pico de oxitocina, de formação do vínculo, depois a creche, aos 4 meses de idade, que leva a criança à sensação de abandono – e o menino é quem mais sofre, pois ele não consegue internalizar o cuidado como a menina consegue fazer – não é de se estranhar que os meninos tenham muita dificuldade de estabelecer vínculos e tenham até um sentimento inconsciente de vingança com relação às mulheres – que no fundo se dirige à própria mãe. A famosa geração do “fica”, chegam a ficar com 10, 20 numa única noite e assim, não saem da infância nunca. Precisamos ajudá-los, ainda que não haja a possibilidade da presença do pai, trazer um homem adulto que possa servir de iniciador.

Para os homens já formados que forem trabalhar com os meninos, sugiro a leitura do livro “João de Ferro” de Robert Bly, que fala sobre o difícil papel do homem pós “new age” que ainda não sabe que lugar ocupar junto a um feminino tão emancipado que se diz não precisar de proteção (embora as mulheres continuem sofrendo de solidão e de sensação de desamparo). Os homens ficaram sem entender direito o que se espera deles e ainda não assentaram em algum lugar masculino, não ditador, e que seja confortável.

Sugiro que este trabalho seja trazido por pais e professores sensíveis e abertos a esta fase das crianças e que fiquem conscientes da importância desta etapa na educação pré natal posterior, que é a base sólida para a paz no planeta Terra.

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6 Respostas to “Projeto “De Mãe para Filha””

  1. JACILENE MARIA DOS SANTOS Says:

    MUITO BOM ESSE TRABALHO .

  2. JACILENE MARIA DOS SANTOS Says:

    GOSTARIA DE MAIS DETALHES MIM ENTERESEI POIS GOSTO DE TRABALHAR COM MÃES.

    • rematteoni Says:

      Olá Jacilene, de onde você é?
      Esse projeto, como vários outros da ANEP, ainda estão sendo gestados. mas teremos o maior prazer em conversar e falar mais sobre o que é a ANEP Brasil.
      Se quiser conversar, peço que entre em contato comigo por email: renatamatteoni@gmail.com
      Abraço!
      Renata

  3. Flávia Mattos Says:

    Carlinha, adorei o texto, o título e a proposta. Precisamos muito de reflexões como esta, e mais do que isso, de oportunidades de vivências e do compartilhar temas tão profundos e essenciais. Saudades!

  4. 2@Vermelha – Edição 2011 « ANEP Brasil Says:

    […] apoia essa iniciativa tão importante, e celebra convidando a quem nos visita a ler (ou reler) o artigo “De Mãe Para Filha”, que fala sobre um de nossos projetos, que visa justamente proporcionar a meninas entrando na […]

  5. Viviane Inocêncio Turteltaub Says:

    Nossa eu achei FANTÁSTICO este trabalho!!! Gostaria muito de participar com minha filha, mas ela ainda é pequena…
    Contudo, gostaria de ter a oportunidade de conhecer mais a fundo e quem sabe expandi-lo à outras pessoas. Bjs

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