O período anterior ao nascimento influencia mesmo nossas vidas?

(tradução livre de texto de  Marie-Andrée Bertin, fundadora da OMAEP)

Nós hoje sabemos que cada estágio de nossas vidas exerce influência sobre o estágio subsequente. Psiquiatras já demonstraram, e todos já tivemos oportunidade de observar isso em nossas vidas e nas vidas dos que nos cercam.

Esse fato hoje óbvio é resultado de um longo processo de desenvolvimento.

Durante a primeira metade do século XX, avanços no estudo de padrões de comportamento profundamente enraizado revelaram a influência de experiências emocionais da primeira infância e sua repercussão na forma como um indivíduo se comporta.

Por exemplo, se um bloqueio emocional tem sua origem nessa fase da vida de alguém, as consequências podem ser para a vida toda, a não ser que um psicoterapeuta seja capaz de ajudar seu paciente a acessar e resolver a questão pertinente e assim remover o bloqueio, ou que circunstâncias extremamente favoráveis, como um casamento muito feliz ou sucesso profissional, permitam que aspectos relativos à questão sejam vivenciados pela pessoa de forma positiva. Assim, novas forças entram em ação para ajudar essa pessoa a superar esse bloqueio e finalmente liberar as forças vitais que estavam obstruídas desde a infância.

Por outro lado, se uma criança pequena recebe amor suficiente, e é reconhecida como um ser humano com valor inerente a essa condição, se seu desenvolvimento caminha de forma natural e gradual em direção a independência, são grandes as chances de que ela se torne um adolescente e um adulto equilibrado, sereno, feliz e confiante em si próprio, nos outros e na vida. Se ele tiver liberdade de viver e expressar sua essência, então se tornará uma pessoa estável, aberta e criativa.

Nos anos 1970 novos avanços se deram quando obstetras como Frédéric Leboyer e Michel Odent, e psicanalistas e psiquiatras em todo o mundo, chamaram atenção para a grande jornada do nascimento e a qualidade da forma como um novo ser chega a esse mundo, e para o fato de serem capazes de produzir profundas marcas na psique. Eles acreditam que 90% de nossos medos tenham origem nos momentos que cercam nosso nascimento, sendo essa etapa, portanto, determinante para nosso comportamento na infância, na adolescência e na vida adulta.

Passamos então a examinar as evidências para sugerir que período pré-natal seja considerado como um dos estágios que tem poder de influenciar a vida futura do “novo indivíduo”.

Com base nessas idéias, um embrião ou feto poderia ser influenciado ou educado?  Que efeitos isso teria a longo prazo?

Que tipo de educação é essa? Podemos criar regras e programar o desenvolvimento de um ser humano? Obviamente não. Regras e programações têm a ver com instrução, não com educação.

O propósito da instrução é transferir conhecimento e experiência. Ela se baseia em métodos de aprendizado.

Educação, por sua vez, tem por fim facilitar o despertar de faculdades que estão latentes em um indivíduo, e envolve aspectos físicos, emocionais, intelectuais, morais e espirituais.

Assim, educação pode ser definida como “a implementação de métodos que permitam que um ser humano se forme e se desenvolva”. De fato uma pessoa é capaz de educar a si própria, isto é, ela é capaz de se modelar e se desenvolver a partir do movimento de forças vitais que existem dentro dela. Ela consegue isso através de elementos físicos, emocionais e mentais que lhe são fornecidos pelos que estão ao seu redor e pelo seu ambiente.

Numa criança, educação envolve três processos essenciais: impregnação, imitação e experimentação. Obviamente não há experimentação para um bebê no útero, e provavelmente também não há imitação. As oportunidades para impregnação, no entanto, são amplas. Esse é o estágio em que nossas células começam a ser programadas. Experiência de vida certamente deixa marcas, mas essas marcas apenas se sobrepõem à base que já foi formada. Isso mostra a importância dessa impregnação inicial e das bases que se formam nesse estágio inicial do desenvolvimento humano.

A educação pré-natal, portanto, não é uma invenção nem uma ideologia criada por alguém. É, sim, a combinação de todos os processos naturais envolvidos, não importando que tenhamos ou não consciência deles, nem que deles gostemos ou não.

Nossa sugestão é de que esses achados sejam difundidos, de modo que futuros pais, com conhecimento desses fatos, tenham liberdade e oportunidade para prover ao embrião, e depois ao feto, as melhores bases e condições para seu desenvolvimento, respeitando seu processo natural e sua dinâmica própria, de forma a facilitar o desenvolvimento dos potenciais e qualidades contidas desde o início de sua formação.

Nós costumamos ser questionados sobre a quem diz respeito a educação pré-natal: mãe ou criança? E a resposta é: a ambos. Porque a simbiose entre eles é tamanha que tudo que a mãe vivenciar a criança vivenciará com ela. A mãe, como primeiro universo do novo ser, representa matéria prima física e psicológica para ele. Ela é também sua intermediária com o mundo. A criança no útero não pode experimentar o mundo diretamente, mas o faz através das sensações, sentimentos pensamentos da mãe, em sua interação com o mundo. No desenvolvimento de sua psique, em seus tecidos e em sua memória orgânica, o novo ser em formação registra essas experiências compartilhadas, que darão o tom de sua personalidade.

(a continuar…)

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