O período anterior ao nascimento influencia mesmo nossas vidas? (parte 5)

(tradução livre de texto de  Marie-Andrée Bertin, fundadora da OMAEP)

Impressões emocionais

Conhecimento

Um fator absolutamente essencial, revelado por psicólogos e psiquiatras, é a qualidade o vinculo emocional entre a mãe e seu bebê.

Dr. VERNY, psiquiatra de Toronto, conta que “o amor que a mãe nutre por seu bebê, as idéias que cultiva para ele, têm influencia determinante em seu desenvolvimento físico, na estruturação de sua personalidade e nas predisposições de seu caráter.”

Uma pesquisa realizada com 500 mulheres mostrou que durante a gestação quase 1/3 delas praticamente nunca pensava no bebê que carregava em seu ventre. Essas mulheres deram à luz a bebês com peso abaixo do normal, que sofriam de problemas digestivos e nervosos mais sérios do que os sofridos por outras crianças. Eles choravam muito nos primeiros anos de vida – ainda não havia tempo hábil para avaliar suas reações como adolescentes e adultos – e enfrentavam dificuldades para se adaptar a outras pessoas e à vida em si.

Essas mães não tinham conhecimento do fato de que seus sentimentos e pensamentos nutriam a psique em desenvolvimento e que o amor é uma necessidade primordial do ser humano mesmo antes do nascimento. Suas crianças foram abandonadas ainda no útero.

Dra. Sylvie RICHARD, pediatra em Tours, produziu uma tese sobre “a influência das experiências emocionais da gestante no temperamento e na saúde de seu bebê”.

Ela monitorou centenas de mães e bebês durante a gestação, nascimento e os primeiros oito meses de vida, os dividindo em três grupos, de acordo com os níveis de estresse sofrido de forma recorrente durante a gestação: normal, intermediário e extremo. As estatísticas obtidas revelaram uma relação óbvia entre os distúrbios emocionais experimentados pela mãe durante a gestação e a saúde e problemas psicológicos enfrentados pelos bebês.

Esse estudo tem relação com outro, realizado pelo Dr. ODENT, segundo o qual a saúde primal – a saúde física e psicológica básica do indivíduo – é estabelecida durante o período de maior dependência em relação à mãe, isto é, durante os nove meses de gestação, os momentos em torno do parto e o período de amamentação.

Em 1964, na Holanda, uma quantidade fora do normal de pessoas obesas se apresentou diante de um comitê formado para analisar a questão. Essas pessoas vinham de uma região submetida a extrema fome e nazismo em 1944. Os mais afetados eram aqueles cujas mães passaram fome durante os primeiros quatro ou cinco meses de gestação, momento em que o hipotálamo, que entre outras funções controla a saciedade, estava em pleno desenvolvimento. A ansiedade sofrida pelas mães teve um efeito biológico no hipotálamo dos bebês que estavam sendo gestados.

Outro estudo, conduzido na Finlândia, envolvendo crianças que haviam perdido seus pais antes ou depois no nascimento, mostrou resultados bem diferentes entre esses dois grupos. Os bebês que compartilharam do estresse materno ainda no útero sofreram mais do que os que já haviam nascido quando da morte dos pais. A proporção de distúrbios psicóticos era mais alta no primeiro grupo: 16% de esquizofrênicos, contra 6% no segundo grupo. Nesse caso os pesquisadores mantiveram a hipótese de dano anatômico do hipotálamo.

Esses exemplos contemplam situações de estresse extremo. Felizmente fome e morte de cônjuge são eventos pouco freqüentes.

Normalmente as questões que surgem são de natureza funcional ou psicológica, sendo passíveis de resolução.

O Professor P. FEDOR-FREYBERGH, da Universidade de Estocolmo, contou a história de uma menininha chamada Kristina que, desde o nascimento recusava obstinadamente o peito materno, embora bebesse avidamente o leite de uma mamadeira, quando a ela era oferecida, assim como sugava vigorosamente o peito de outras mulheres. A intuição do professor o levou a questionar se a mãe realmente desejou aquela criança. “Não”, admitiu a mãe. “Eu quis fazer um aborto, mas como meu marido desejava a criança eu a mantive.” Sem dúvida Kristina percebeu a assimilou a rejeição de sua mãe e seu comportamento era uma reação. A mãe compreendeu e, como seu coração já estava tocado por sua bebê, mudou de atitude e a relação das duas evoluiu.

Nem todas as crianças apresentam reações tão imediatas. Numa ocasião, o medico alemão Paul BICK foi consultado por um homem que se queixava de ondas súbitas de calor, acompanhadas de crises de pânico. O psiquiatra tentou tratá-lo com as técnicas usuais, mas não obteve sucesso. Decidiu então colocar o paciente sob hipnose e provocar uma regressão. Durante sua primeira infância e nascimento não foi identificada qualquer questão. O medico foi ainda mais fundo, levando o paciente a regredir até o nono mês de gestação, depois até o oitavo, até que no sétimo mês o paciente se sentiu sufocado, irritado, com calor e com vontade de se matar: ali estava a origem de seu problema. Depois de trazê-lo de volta do estado de hipnose, combinou de chamar a mãe dele para uma sessão. A mãe, então, pode ajudar a libertar seu filho desse nó, confessando que no sétimo mês de gestação, num ato de desespero, tentou induzir um aborto tomando banhos extremamente quentes. Trinta anos depois ela havia deixado seus problemas para trás, mas a expriência ficou gravada na memória subconsciente de seu filho, e acabou por atormentar sua vida quando adulto.

Para tentar compreender o processo que desencadeia esse tipo de fonômeno, vamos nos desviar um pouco do tema central e analisar os estudos desenvolvidos pelo cirurgião-dentista Dr. LEVINE, de Manchester. Durante um alguns anos ele colecionou dentes de leite e os observou com cortes transversais usando um microscópio eletrônico.

Dentes são uma espécie de arquivo, contendo informações sobre nosso corpo (dentes de leite são formados durante a segunda metade da gestação e o primeiro ano de vida). As camadas de esmalte podem ser datadas da mesma forma que os geólogos datam as diversas camadas da terra.

Em sua pesquisa, Dr. LEVINE primeiro observou uma linha acinzentada, que chamou de “linha neonatal”, pois ela corresponderia ao “trauma do nascimento”. Ela não estaria presente em caso de nascimentos ocorridos sob condições ideais. As camadas de esmalte localizadas abaixo dessa linha são depositadas nos botões dentários em desenvolvimento dentro do maxilar do bebê enquanto ele ainda está sendo gestado. Nessas camadas ele observou freqüentes anomalias, até mesmo falhas imperceptíveis a olho nu.

O que pode ocorrer para atrapalhar a formação correta dos dentes de leite…e provavelmente de órgãos nobres como o coração, o fígado e o cérebro, que não retém traços anatômicos descerníveis?

Seguindo em frente, Dr. LEVINE se associou a um psiquiatra, que conversou com as mães das crianças cujos dentes foram observados. Eles confirmaram haver um correspondência exata entre as anomalias identificadas e vários tipos de estresse violento sofrido por essas mulheres durante a gestação.

Mas como se dá esse fenômeno?

Quando nos estressamos, nosso organismo, nossa glândula adrenal, em particular, produz adrenalina e catecolamina, os chamados “hormônios do estresse”, responsáveis pela capacidade do nosos organismo de enfrentar situações estressantes. Numa gestante, esses hormônios, ao serem liberados, atravessam a placenta e inundam o bebê, criando nele um estado psicológico semelhante ao da mãe. Esse estado, para o bebê, é muito mais forte e mais significativo do que para a mãe, pois o organismo do adulto já teve oportunidade de desenvolver, ao longo da vida, estratégias de defesa, enquanto que o organismo do bebê ainda não possui qualquer defesa.

Gestantes acessando essas informações não devem se exasperar, pois nos referimos a choques severos. Não devem se preocupar se algo dá errado, causando um momento de estresse. Apenas choques muito sérios e questões que perduram por muito tempo afetam o bebê – por exemplo, um relacionamento péssimo da mãe com seu parceiro, em que o estresse é recorrente e já vem sendo estabelecido há algum tempo.

É bom lembrar também que a futura mãe possui o que Dr. VERNY chamou de “escudo protetor”, para sua criança: o seu amor. Isso pode falhar apenas sob condições muito ruins.

Felizmente, quando a mãe pode agir positivamente, o oposto também é verdadeiro. Quando estamos felizes, alegres, de bem com a vida, nosso cérebro secreta endorfinas, os “hormônios da felicidade” que, numa gestante, são transmitidos para o bebê com a conseqüente sensação de relaxamento e joie de vivre experienciada pela mãe. Se o bebê no útero se desenvolve nessas condições favoráveis durante boa parte da gestação, carregará essa memória consigo e grandes são as chances de que seu caráter seja influenciado por elas: um indivíduo com gosto pelo prazer, capacidade para encontrar a felicidade e que naturalmente criará, vida afora, condições para tanto.

Se o bebê no útero está sendo nutrido com afeto, certamente será capaz de retribuir, como revelado no fascinante estudo com uso de ultrassom realizado pela Dr. Alessandra PIONTELLI, de Milão.

“Madame D. estava gestando gêmeos. A primeira ultrassonografia mostrou que o menino (Luke) era bem mais ativo que a menina (Alicia). Ele se virava constantemente, dando chutes e esticando suas pernas contra a parede uterina. A sensação da mãe era de que ele estava impaciente para sair dali e essa foi também minha impressão. Em alguns momentos ele interrompia sua “ginástica” para dar atenção à sua irmã. Ele esticava seus braços e com suas mãos tocava o rosto dela, através da membrana que os separava. Ela respondia se virando na direção dele e por alguns instantes seus rostos se tocavam em um gesto de carinho. Nós os apelidamos de “gêmeos amorosos”.

Nós percebemos que Alicia tomava iniciativa de fazer contato com o irmão com menos freqüência do que ele. Na maior parte do tempo ela parecia sonolenta e o movimento de suas mãos e cabeça era quase imperceptível. No entanto, ela sempre respondia às iniciativas de contato de Luke.

Logo apos o nascimento fui visitá-los no hospital. A mãe contou que Luke nasceu primeiro e a diferença de peso entre os dois bebês era bem grande. Ele possuía uma estrutura robusta e era muito vivo e alerta, enquanto Alicia era bem delicada e calma. Suas características correspondiam exatamente ao comportamento observado quando ainda estavam dentro do útero.

Com um ano de idade eles haviam começado a andar, balbuciavam as primeiras palavras e brincavam muito juntos. Sua brincadeira favorita era de se esconder atrás de uma cortina, que aparentemente representava a membrana que os separava dentro de útero. Luke empurrava a cortina com suas mãos, Alicia movia sua cabeça em sua direção e os dois acariciavam um ao outro.”

Esse estudo foi muito significativo. Dra. PIONTELLI demonstrou que desde  os primeiros estágios da vida, quiçá desde a concepção, o indivíduo apresenta tendências comportamentais. Esses padrões comportamentais iniciais parecem persistir após o primeiro ano de vida, indicando um constante desenvolvimento da mesma personalidade. E, o que quer que isso possa significar, é certo que a necessidade e a habilidade de comunicação estão presentes na vida uterina.

(a continuar)

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Quer ler desde o início?

Veja aqui:

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

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