O período anterior ao nascimento influencia mesmo nossas vidas? (parte 3)

(tradução livre de texto de  Marie-Andrée Bertin, fundadora da OMAEP)

O desenvolvimento sensorial do bebê

Os órgãos sensoriais e seus correspondentes centros cerebrais são estabelecidos ao final do período embrionário, em torno do final do terceiro mês de vida intra-uterina. Durante os seis meses seguintes, que correspondem ao período fetal, esses órgãos são desenvolvidos e refinados em suas especializações, de formas diversas, de acordo com a natureza de suas funções e dependendo da qualidade e da intensidade do estímulo recebido.

A visão requer uma luz média para operar. No entanto, quando a mãe expõe a barriga ao sol, nada além de uma leve luz alaranjada alcança o bebê.

Por outro lado, do nascimento em diante, o bebê olha ativamente para o rosto da mãe. O encontro desses olhares é um momento especial, de emoções fortes e profundas, que marca o início de uma nova fase do vínculo entre mãe e filho.

De acordo com Benoît SCHAAL, o sentido do olfato se desenvolve, juntamente com o do paladar, através de um órgão olfativo sencundário especialmente desenvolvido durante a gestação, adaptado para detectar moleculas de odores num ambiente aquatico. Nas palavras da pediatra Marie THIRION: “durante as primeiras horas de vida, o bebê se deparando com a urgente necessidade de encontrar nutrição, busca o cheiro da mãe, mais especificamente o cheiro do leite que exala de seus seios. É sempre fascinante observar um bebê farejando sua mãe, aconchegando-se em seu peito…e reconhecendo o local onde é possível encontrar sua felicidade e subsistência.”

O paladar é densenvolvido dia-a-dia e expressa suas preferências. A cada dia o bebê absorve uma certa quantidade de líquido amniótico. Se uma substância doce é injetada no líquido, o bebê engole uma porção dobrada. No entanto, se uma substância amarga é injetada o bebê engole bem pouco e imagens de ultrassom já mostraram o bebê fazendo caretas.

Através do líquido intra uterino, cujo sabor provém dos alimentos consumidos pela mãe, o bebê já tem contato com os sabores da comida da região onde ele nascerá. Podemos citar o exemplo do pequeno indiano adotado aos três meses por um casal parisiense. Com a introdução da alimentação sólida, o bebê obstinadamente recusava o arroz preparado de acordo com os mais variados métodos ocidentais, mas aceitava arroz com curry, como consumido por sua mãe biológica na India, quando ele estava sendo gerado.

Os sentidos do olfato e do paladar, segundo o Professor Jean-Pierre RELIER, constituem um dos aspectos fundamentais da relação entre mãe e bebê durante a gestação. Eles permitem ao recém nascido recriar o ambiente sensorial e emocional com facilidade, a partir da identificação do cheiro exalado pela pele da mãe e do sabor do leite materno. Por essa razão, o contato pele-a-pele nos primeiros minutos de vida fora do útero é tão importante.

Os sentidos que têm sido mais estudados são o tato e a audição.

O tato tem relação com a pele como um todo, e no caso da pele do bebê no útero, ela é continuamente estimulada pelo músculo uterino e pela parede abdominal. O holandês Frans VELDMAN desenvolveu a haptonomia, método de comunicação emocional que utiliza o sentido do tato, através da parede abdominal, para que a mãe e, especialmente o pai, aprofundem a relação com o bebê que está dentro do útero. São grandes os benefícios percebidos com esse método no momento do nascimento, quando esses vínculos são então reforçados.

Revelações maravilhosas têm surgido em relação ao sentido da audição, conhecido por civilizações antigas como sendo o sentido da sabedoria. A noite, o útero está longe de ser um ambiente silencioso. Microfones introduzidos no útero materno capturaram o som do sistema digestivo, com sons ininterruptos ao fundo, da respiração às batidas do coração materno. A voz da mãe emerge sobre os demais sons, como uma melodia.

Barulhos e sons externos dificilmente passam pela barreira da parede abdominal: eles são transferidos para o bebê através do sistema auditivo materno, seus órgãos de ressonância e estrutura óssea: crânio, coluna vertebral, pélvis. É assim com a voz do pai, especialmente quando a mãe o escuta com afeto, e a música que ela ouve com atenção.

Mas o que o bebê assimila disso tudo?

O ouvido interno, responsável pela seleção e transmissão dos sons ao cérebro, está maduro em torno do quinto mês de gestação. Jean FEIJOO obteve respostas motoras e cardíacas significativas desse estágio da gestação em diante, como reação aos estímulos produzidos pelo som da flauta da história Pedro e o Lobo, direcionados ao abdomen da mãe. A mãe estava relaxada, ouvindo música suave através de fones de ouvido, de modo que não pudesse ouvir o som da flauta. A reação do bebê definitivamente foi independente da reação da mãe.

Dr. TOMATIS, no entanto, mostrou que o bebê percebe sons muito antes que seus ouvidos comecem a funcionar. Ele conta a história da pequena Odile, autista, que respondia ao tratamento a que era submetida de forma mais positiva sempre que com ela era falado em inglês. Aparentemente não havia razão para isso, mas o mistério foi solucionado quando sua mãe lembrou que, no início de sua gestação, em período anterior à maturação do ouvido de Odile, ela havia trabalhado para uma empresa de comércio exterior onde se comunicava apenas em inglês. Obviamente Odile não entendia inglês, mas podia perceber e codificar o ritmo, a melodia e a frequência dessa língua, que vibra a 12.000Hz, enquanto o francês se estabiliza num nível de 8.000Hz. Ela reteve a sensação de segurança relativa a um período anterior à origem de seu autismo.

De fato, o ser em desenvolvimento, do período embrionário em diante, recebe vibrações sonoras por meio de células receptoras em sua pele, músculos e articulações. Por outro lado, quando o ouvido começa a funcionar, ele filtra os sons e recebe apenas os mais altos. Trata-se de um mecanismo essencial de proteção contra os sons internos do organismo materno, que são intermitentes. Sem isso o bebê no útero jamais dormiria.

Marie-louise AUCHER, coach vocal, fez interessantes descobertas sobre as famílias de seus pacientes, cantores profisisonais que praticavam em casa diariamente. Mães sopranos davam à luz a bebês com a parte superior do corpo extremamente bem desenvolvida. Eram capazes de segurar objetos muito cedo, aproximando seus polegares dos outros dedos, o que é sinal de uma excelente coordenação motora. Por outro lado, bebês de pais baixo profondo apresentavam a parte inferior do corpo mais desenvolvida. Crianças que andavam cedo e que – o que é ainda mais interessante – quando adultas tendiam a gostar muito de caminhar.

Para compreender esse fenômeno, Mari-Louise AUCHER trabalhou em várias universidades parisienses e hospitais, com professores das mais diversas disciplinas. Juntos eles se surpreenderam ao identificar o impacto dos sons da escala musical sobre o vaso governador, meridiano energético bem conhecido por acupunturistas.

Outros estudos mostram que cada som produz ressonância vibratória em uma vértebra, um par de gânglios simpáticos e sistema parassimpático. Quando algum desses pontos de energia, ou centros nervosos, é estimulado, em contrapartida estimula a região correspondente e o sistema nervoso como um todo, incluindo o cérebro, é dinamizado. Segundo Dr. TOMATIS, o ouvido é um dínamo para o cérebro.

(a continuar)

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