A Neurociência e a Criança de Zero a Três Anos

Por Sandra Sisla

Estes trechos do trabalho de Iole da Cunha  podem nos elucidar as evidências e percepções que temos a respeito da importância das vivências e experiências, desde a gestação até três anos de idade, na construção e formação do individuo como um todo, com explicação ciêntifica comprovada.
Há muito pouco tempo tanto a medicina quanto a educação tinham concepções limitadas quanto à importância e à magnitude destes três primeiros anos de vida, dando ênfase somente aos cuidados orgânicos e corporais como sendo suficientes para a saúde básica, tanto que só há alguns anos as creches tornaram-se parte responsáveis pela educação e não mais da área da saúde passando a considerar que cuidar também é educar.
É certo que alguns autores e estudiosos vêm ampliando sua compreensão e atenção sobre os bebês especialmente profissionais que lidam com os aspectos afetivos emocionais, porem ainda se encontram concepções bem limitadas ou equivocadas especialmente em ambientes institucionais como escolas na educação infantil, ambulatórios e hospitais/maternidade.

“A NEUROCIÊNCIA E A CRIANÇA DE ZERO A TRÊS ANOS

Quando nasce um bebê, antes mesmo que a mãe o abrace, o olhe ou o toque, já se iniciou neste novo individuo um célere processo de desenvolvimento. Principalmente em seu cérebro. Mas diferentemente da maioria dos seus órgãos, em que novas células se originam da divisão das já existentes, o cérebro cresce graças a modificações dos neurônios já existentes. Como resultado da nova experiência interativa do “organismo bebê” com o “objeto mãe”, iniciado antes do nascimento, os aproximadamente 100 bilhões de neurônios que constituem a base genética do cérebro humano vão se modificar. Para cumprir sua função de se comunicar entre si, permitindo que a informação que vem da experiência viaje de uma parte do cérebro para outra, surgem redes neurais, que se constituirão na estrutura do que será o indivíduo como um todo (self). Esta microestrutura neural, base da macroestrutura do cérebro, gera funções que vão desde a capacidade de regulação homeodinamica, a auto-regulação afetiva, a literacia, a função mental enfim com os sentimentos, a comunicação social até outras mais sofisticadas como a linguagem, o aprendizado, e a possibilidade de elaborar conceitos e buscar soluções.

Enquanto um pai tenta confortar um bebê que chora ou uma mãe conversa com seu filho numa relação “olho-no-olho”, ou enquanto o neto ouve a história que a avó lê, numa questão de segundos, milhares de células do cérebro destas crianças proliferam, se desorganizam, são eliminadas, reorganizadas e organizadas pelo estímulo destas experiências particulares. Formam-se novas conexões, conferindo mais definição e complexidade ao intrincado circuito que poderá permanecer pelo resto da vida e se constituir naquilo que será o adulto.

Mas, estes conhecimentos são recentes. Faz pouco, ficou-se sabendo que o bebê não é uma tabula rasa ou uma massa informe moldável segundo os desejos do adulto. Até bem recentemente, não era acessível e generalizado o conhecimento da enorme atividade e complexidade do cérebro do bebê. Também não se sabia quão flexível o cérebro pode ser! De quinze anos para cá, os neonatologistas, agregando conhecimentos de outras disciplinas, principalmente da neurociência, puderam explicar cientificamente quem eram realmente os bebês sob seus cuidados. Na verdade, os neurocientistas se encarregaram de mostrar que a determinação genética que organiza o cérebro do bebê é importante até 21 semanas de gestação. A partir de então e principalmente com o nascimento (prematuro ou a termo), a epigenética ou seja a experiência vivenciada desde os primeiros momentos, pelos cuidados, têm um impacto tão grande na arquitetura do cérebro, a ponto de se estender às capacidades do futuro adulto.

Os conhecimento trazidos recentemente pelas ciências do cérebro junto a experiência clínica como intensivista em UTIN (Unidade de Tratamento Intensivo Neonatal) fez desenvolver a pretensão de acreditar que cuidados adequados nos três primeiros anos poderiam fazer a profilaxia e proteger os bebês não nascidos, os recém-nascidos, suas mães e famílias das terríveis conseqüências que ensombrecem os relacionamentos atuais.

(…)

O bebê

Nos últimos anos os avanços da neurociência confirmaram o que os neonatologistas e demais agentes de saúde das UTIN suspeitavam: o bebê não é tabula rasa, mas indivíduo dotado de processos mentais ou mente que emerge de uma estrutura cerebral. Desde 20 a 24 semanas de vida pré-natal, quando se completa a migração neuronal, e o cérebro já tem 100 bilhões de neurônios, o pequeno amnionauta, ou aeronauta se for um prematuro limítrofe, é capaz de perceber a sua circunstância, o ambiente que o cerca, e formar proto-representações decorrentes das experiências e emoções que esculpirão os mágicos caminhos do seu cérebro em desenvolvimento e formarão seu self.

A neuro-embriologia define o córtex límbico órbito pré-frontal como a matrix da mente de zero a três anos, ou seja desde o limite da prematuridade, pois o bebê zero é o recém-nascido, quer seja prematuro extremo ou a termo. É um período de imaturidade anatômica, mas de maturidade funcional tanto maior quanto mais prematuro for o bebê. Sua função mental é definida pela habilidade de categorização perceptual, que permite ao bebê a inscrição de sensações de afetos positivos, que lhe determina sentimentos de segurança e acolhimento. Ou de afetos negativos determinando insegurança e desamparo. São os dois modos de perceber o mundo neste período inicial, e se estes registros forem contínuos e suficientemente fortes, eles têm grande chance de esculpir circuitos neurais duradouros podendo interferir no desenvolvimento e na aquisição das habilidades cognitivas. Nesse período do desenvolvimento, os órgãos dos sentidos são especificamente maduros, para conferir ao bebê uma fina e específica somatosensorialidade, e enviar os estímulos até o córtex das emoções no sistema límbico órbito frontal, gerando proliferação das terminações sinápticas e graças principalmente ao hipocampo e amigdala, arquivar as memórias destas vivências e criar seu conteúdo emocional. Aos três anos, começa a madurecer um novo processo mental: a categorização conceitual, pelo surgimento da consciência assentada no crescimento e amadurecimento do córtex executivo. A criança começa a dar-se conta de que o outro não pensa como ela. Esta consciência gera a conceitualização e a percepção da individualidade.

O senso coerente de consciência, que se desenvolve na experiência interativa com o outro (self-non-self, mundo, circunstância) depende em muito da percepção do bebê de sua interação com o cuidador, forjada nas vivências do seu passado de zero a três. Poderá ser uma percepção de sintonia, ou Mesmo desde antes da concepção, visto com estes novos olhares, o bebê necessita ser desejado porque deve perceber que o que lhe garante a satisfação não é a mera presença da mãe, mas que ela o deseja. E desta forma passará a desejar o desejo da mãe e não a mãe em si. A percepção de afetos positivos está na base da caspacidade de auto-regulação afetiva, e na aquisição das funções executivas responsáveis por iniciar e desenvolver uma atividade com um objetivo final determinado. O bebê de zero a três, necessita que seu cuidador (mãe) use seu córtex executivo (já que até o final deste período o seu ainda não se desenvolveu para esta função) a fim de ajuda-lo a nomear o mundo e se tornar autônomo o que começa a ocorrer aos três anos.

Estes conhecimentos geram a responsabilidade de modificar os cuidados do início da vida. São uma nova ferramenta capaz de mobilizar o bebê interno do cuidador enquanto ensina uma nova linguagem, não a da palavra articulada, mas a pré-verbal, somatizada no corpo do bebê, imaturo para saber porque os outros não pensam como ele, mas ainda incapaz de comunicar seu desamparo pela semântica e a gramática. Admite-se que os distúrbios do desenvolvimento e a violência social nascem da percepção de abandono e negligência neste período inicial e, para preveni-los, é necessário cuidar bem desde o ventre.”

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Uma resposta to “A Neurociência e a Criança de Zero a Três Anos”

  1. Luciane Tracerra Silva Says:

    Outro texto muito bom, Giovanna e Monica !!!!

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